Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que ajudem a pôr em prática esta actividade.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

vinho


começámos por assistir ao pôr do sol

e por um copo de vinho

a Cristina leu-nos um pouco de "A Casa de Papel" de Carlos María Domínguez

a Teresa sugeriu-nos "O que diz Molero" de Dinis Machado


e de seguida mergulhámos no vinho


a Ana, o António e a Luísa leram-nos um excerto de
"O país das uvas" de Fialho de Almeida


a Ana Maria e a Virgínia leram um excerto de "Vindima" de Miguel Torga


o Renato leu-nos um pouco de "Reviver o passado em Brideshead" de Evelyn Waugh


o Luís também escolheu "Vindima" de Miguel Torga


a Alexandra leu "Em louvor do vinho" de Fausto José, de "Cancioneiro do vinho português"


a Maria e a Margarida leram um excerto de "Pranto de Maria Parda" de Gil Vicente


a Teresa leu um excerto de


(...) No dia seguinte o rapaz chegou à praia, sentou-se ao lado da Menina do Mar e disse:
- Hoje trago-te uma coisa da terra que é bonita e tem lá dentro alegria. Chama-se vinho. Quem bebe fica cheio de alegria.

Enquanto dizia isto o rapaz pousou na ar um copo cheio de vinho. Era um daqueles copos muito pequenos que servem para beber licores. A Menina do
Mar segurou o copo com as duas mãos e olhou o vinho cheia de curiosidade, respirando o seu perfume.

- É muito encarnado e muito perfumado - disse ela. - Conta-me o que é o vinho.

- Na terra -- respondeu o rapaz - há uma planta que se chama videira. No Inverno parece morta e seca. Mas na Primavera enche-se de folhas e no Verão enche-se de frutos que se chamam uvas e que crescem em cachos. E no Outono os homens colhem os cachos de uvas e põem-nos em grandes tanques de pedra onde os pisam até que o seu sumo escorra. E a esse sumo dos frutos da videira que chamamos o vinho. Esta é a história do vinho, mas o seu sabor não o sei contar. Bebe se queres saber como é.

E a Menina bebeu o vinho, riu-se e disse:

- É bom e é alegre. Agora já sei o que é a terra. Agora já sei o que é o sabor da Primavera, do Verão e do Outono. Já sei o que é o sabor dos frutos. Já sei o que
é a frescura das árvores. Já sei como é o calor duma montanha ao sol. Leva-me a ver a terra. Eu quero ir ver a terra. Há tantas coisas que eu não sei. (...)

Sophia de Mello Breyner Andresen



o Fernando leu o conto "Primeira mão" de Rui Zink de "Antologia do humor português"
e num ambiente ainda mais descontraído, leu ainda "Cântico tinto" de J. M. de Matos Vila





a Cristina leu
(...) Facilitam, também a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa mais, além do vinho, que aí deves buscar.
Muitas vezes, braços delicados, os lançou o Amor, de rosto afoguedada,
sobre os chifres apertados de Baco, bem bebido;
e quando o vinho se espalhou sobre as asas esponjosas de Cupido,
ali fica e permanece prostrado do peso no lugar onde estava;
e logo sacode, à pressa, as penas encharcadas,
mas as próprias gotas sacudidas pelo amor são danosas ao coração.
O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de vinho puro;
chega, então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.
Ali, muitas vezes as moças arrebataram os corações dos rapazes,
e Vénus, no vinho, tornou-se fogo no fogo.
Aqui, não te fies tu em demasia nas luzes enganadoras;
na apreciação da formosura, são danosos a noite e o vinho.
Foi à luz do dia e com céu desanuviado que Páris contemplou as deusas,
quando disse a Vénus: “és tu quem leva de vencida as outras duas”.
De noite, ficam disfarçados os defeitos e desculpam-se todos os vícios;
essa é a hora que torna famosa qualquer uma;
consulta, antes, a luz do dia a respeito das gemas, da lã tingida de púrpura,
consulta-a a respeito do rosto e do corpo. (...)

Excerto de "Arte de Amar" de Ovídio
tradução de Carlos Ascenso André

e ainda

Embriagai-vos

É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isto; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.

Mas – de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:

É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Charles Baudelaire
de Pequenos Poemas em Prosa (O Spleen de Paris)
Trad. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira


e continuámos pela noite dentro

próxima sessão | 16 Junho 2015

é o tema

será responsável pelo livro do dia

ser criança


Antes de entrarmos no tema da sessão falámos de outras leituras em voz alta

- nasceu outro clube de leitura em voz alta, chama-se "Leituras da Escola Comunitária de Alcochete".
Eis um resumo fotográfico de uma das sessões:




- voltámos a falar da "Leitura Furiosa" deste ano

a Cristina falou-nos do Cancioneiro Infanto-Juvenil do Instituto Piaget.
Com o tema "Ser criança" seria inevitável falar do grande Manoel de Barros



a Cristina falou-nos ainda de "Infância roubada", uma antologia de textos de autores portugueses que falam da sua infância, numa organização de Matilde Rosa Araújo
e leu deste mesmo livro:

ficou da infância a febre

ficou da infância a febre
de correr parado
pelas estradas

podes chamar-lhe versos
são viagens

ficou na infância a fisga
de arremessar ao vento

podes chamar-lhe versos
são pedradas


 
vamos brincar?



a Celina leu um excerto de «Num meio dia de fim de primavera» de Alberto Caeiro


e a Maria leu-nos o excerto que faltava deste mesmo poema


o Fernando leu, com a ajuda de todos
Pois pois

O Padre António Vieira pregava de encostar as orelhas na boca do bárbaro.
Que para ouvir as vozes do chão
Que para ouvir a fala das águas
Que para ouvir o silêncio das pedras
Que para ouvir o crescimento das árvores
E as origens do Ser. Pois Pois.
Bernardo da Mata nunca fez outra coisa
Que ouvir as vozes do chão
Que ouvir o perfume das cores
Que ver o silêncio das formas
E o formato dos campos. Pois Pois.
Passei muitos anos a rabiscar, neste caderno, os escutamentos de Bernardo.
Ele via e ouvia inexistências.
Eu penso agora que esse Bernardo tem cacoete para poeta


O livro de Bernardo

1

Os meninos me letram de Bandarra.
(Bandarra é cavalo velho solto
no pasto, às moscas.)
Esse é meu estandarte.

2

Não tenho pensa.
Tenho só árvores ventos
passarinhos – issos.

3

Dentro de mim
eu me eremito
como os padres do ermo.

4

Meus caminhos
a garça
redime.

5

Sou aquele
que gastou a sua história
na beira de um rio.

6

Estes brejos amanhecem
amarrados
de conchas.

7

A voz dos sapos de tarde
é destroncada
por dentro.

8

O sol transborda
nas estradas
e no olhar das sariemas.

9

Ao lado de uma lara
de uma pedra
estou conforme.

10

Passarinhos do mato
gostam de mim
e de goiaba.

11

Cavalos entardecem
na beira do mato –
onde entardeço.

12

Uma rã me benzeu
com as mãos
na água.

13

Caramujos sempre chegam depois.
Representa que estão chegando
da eternidade.

14

Meu desagero
é de ser
fascinado por trastes.

15

O silêncio
está úmido
de aves.

16

Registros de lagartixas
nas ruínas:
elas têm sabimentos de pedras.

17

Vi o verão
no meio das pedras
e um lagarto.

18

A chuva
azula a voz
das andorinhas

19

Eternidade
é palavra
encostada em
Deus.

20

Águas que sabem
a pedras
sabem a rãs.

21

Sapos sabem divinamentos
mais do que as árvores
mais do que os homens.

22

O sangue do sol
nas águas
atrai mariposas.

23

Sou livre
para o silêncio das formas
e das cores.

24

Caracóis
não gosmam
em latas.

25

Ocupo função de exílio
quando anoitece
nas águas.

26

Passam formigas perdidas
no lado esquerdo
da casa.

27

No olho songo
do lagarto
nasce um pedaço de nuvem.

28

O corpo do rio prateia
quando a lua
se abre.

29

Na beira da mosca
o céu parou
o dia parou.

30

O dia estava
em condições de boca
para as borboletas.

31

O lírio
e as garças
são imaculantes.

32

Sou beato de águas
de pedras
e de aves.

33

De tarde
cigarras
arrebentavam o verão.

34

Dentro dos caramujos –
há silêncios
remontados.

35

Quem ornamenta o azul
das manhãs
são os sabiás.

36

Estou pousado em mim
igual que formiga
sem rumo.

37

Com fios de orvalho
aranhas tecem
a madrugada.

38

Eu vi que a noite dormia
escorada
nos arvoredos.

39

Andorinhas passeiam
na chuva
e no meu ocaso.

40

Quase vestida de sol
vi a chuva
em cima do morro.

41

Palavras
Gosto de brincar com elas
Tenho preguiça de ser sério.

42

Tenho candor
por bobagens
Quando eu crescer eu vou ficar criança.

43

Bom é
constar das paisagens
como um rio, uma pedra.

44

Meu requinte
é chegar às vilezas
com castidade.

45

Passarinho
faz árvore de tarde
nos andarilhos.

46

Poeta
é uma pessoa
que reverdece nele mesmo.

47

Reconhecer a eminência
dos insetos
leva à sabedoria.

48

Pelo corpo
das latas podres
relvam rosas.

49

As garças
quando alçam
se entardecem.

50

Já me dei ao desfrute
de ser ao mesmo tempo
pedra e sapo.

51

Preciso de alcançar
a indulgência
pedral.

52

Uma açucena
me convidou
para de noite.





a Luísa leu um excerto de «A língua posta a salvo», de Elias Canetti



o Renato leu «Ser criança» de Madalena e um excerto de «O Deus das Moscas», de William Golding



a Margarida e a Virgínia leram, de Alice Gomes "Na idade dos porquês"

Na idade dos porquês


Professor diz-me porquê?

Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto  mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta  professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.




a Teresa leu um excerto do conto «A volta por cima», de Fernando Sabino



o Tomás e a Maria Teresa leram «O dromedário descontente», de Jacques Prévert

O dromedário descontente

Era uma vez um jovem dromedário que não estava nada contente. Na véspera, dissera ele aos amigos: “Amanhã vou sair com o meu pai e com a minha mãe, vamos ouvir uma conferência, ora vejam!” Os outros tinham dito: “Olha, olha, ele vai ouvir uma conferência, que maravilha”. Não pregara olho toda a noite, tal era a sua impaciência. E agora não estava contente porque a conferência não era nada do que imaginara: não tinha música e era uma decepção, estava aborrecidíssimo e com vontade de chorar. Havia uma hora e três quartos que um senhor gordo falava. Diante do senhor gordo havia um jarro de água e um copo de dentes sem escova. De tempos a tempos, o senhor deitava água no copo mas nunca lavava os dentes e, visivelmente irritado, falava de outra coisa, isto é, dos dromedários e dos camelos. O jovem dromedário estava cheio de calor e, além disso, a bossa incomodava-o muito porque roçava nas costas da cadeira. Estava muito mal sentado, mexia-se e remexia-se. Então, a mãe dizia-lhe: “Está quieto, deixa falar o senhor”, e dava-lhe beliscões na bossa. O jovem dromedário tinha cada vez mais vontade de chorar, de se ir embora… De cinco em cinco minutos o conferencista repetia: “Sobretudo, há que não confundir os dromedários com os camelos. Chamo a vossa atenção, minha senhoras, meus senhores e caros dromedários, para este facto: o camelo tem duas bossas, mas o dromedário só tem uma!” Todas as pessoas na sala diziam: “Ah, ah, muito interessante”, e os camelos, os dromedários, os homens, as mulheres e as crianças tomavam notas nos seus canhenhos.

Depois tornava o conferencista: “O que distingue os dois animais é que o dromedário tem só uma bossa, ao passo que, coisa estranha e que é útil conhecer, o camelo tem duas…” Por fim, o jovem dromedário fartou-se e, saltando para o estrado, mordeu o conferencista. “Camelo!”, disse o conferencista furioso. E toda a gente na sala gritava: “Camelo, porco de camelo, porco de camelo!” E, no entanto, era um dromedário, e todo limpinho.


o Luís leu de Ruy Belo
Algumas Proposições com Crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

de 'Homem de Palavra[s]'


a Ilda leu «A história da criança e do desenho», de Rolf Krenzer

A história da criança e do desenho

Certa vez, uma criança fez um desenho. Demorou muito tempo a terminá-lo e usou todos os lápis de cor que tinha. Depois foi ter com a avó e mostrou-lho.    
— O que é isto? — perguntou à avó. 
 — É um desenho muito bonito e cheio de cor — respondeu a avó.   
— Mas o que é? — insistiu.   
A avó não soube responder.    
A criança foi perguntar ao avô.   
— Isto é quase um Picasso — respondeu o avô a rir.   
— E o que é "quase um Picasso"? — perguntou a criança.   
— Um pintor — foi a resposta do avô.   
— Eu também sou um pintor — disse a criança.   
De seguida foi ter com a irmã mais velha.   
— Usaste mesmo as cores todas! — disse ela.   
— Pois foi. Mas o que é isto?   
— Uma gatafunhada colorida!   
A criança tirou-lhe o desenho e foi ter com o pai que estava à mesa a ler o jornal. A criança pôs o desenho em cima do jornal e não disse nada.   
— Oh! — disse o pai.  — Mas isto é um arco-íris todo colorido muito bonito! Vai de uma ponta à outra. Vai de mim até ti.   
— Exactamente — disse a criança.   
Em seguida, a criança e o pai penduraram o desenho precisamente no local onde a luz do sol se reflectia na parede. 


a Alexandra leu "João", de Luisa Sobral
João

Eu saio da escola sempre à mesma hora
Vejo o João que sai também
Já me fiz de distraída, sorri meio atrevida
Mas o João da C finge que não me vê

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

Não sou a mais bonita e nunca sou escolhida
Quando fazem equipas para o futebol
Se alguém fica doente entro para suplente
E fico sentadinha a apanhar sol

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

O João olhar para mim
O João gostar de mim
Ele está a olhar para mim


a Cristina leu de Manoel de Barros

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


e por fim...

próxima sessão | 2 Junho 2015

será o tema

será responsável pelo livro do dia

voz



a Cristina leu um excerto de "El narrador oral y el imaginario" de Pépito Matéo

o Fernando tentou convencer-nos a ler "No meu peito não cabem pássaros" de Nuno Camarneiro


a Carlota e a Madalena leram um excerto de
"Bíblia - A mais fascinante história"
de Silvia Zanconato
com ilustrações de Abigail Ascenso



a Ana Maria e a Virgínia leram de António Ramos Rosa

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



a Anabela e a Margarida leram excertos de
"A arte de dar peidos" de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut
Ilustrado por José María Lema



a Teresa fez-nos uma visita eu leu de António Torrado


O ovo da galinha

Faltam ovos na cozinha
Não há ovos para o doce.
"Alto lá" disse a galinha
"Ponho um ovo e acabou-se."

"Ponho um ovo e acabou-se.
Amassado com farinha,
se não chega para o doce,
vão dizer que a culpa é minha."

"Vão dizer que a culpa é minha.
Vão dizer: ela baldou-se.
Vão dizer: esta galinha
proibiu que houvesse doce."

"Proibiu que houvesse doce.
Foi tacanha, foi mesquinha.
Nem que fosse! Nem que fosse!",
cacarejou a galinha.

Cacarejou a galinha
e espremeu-se e esforçou-se.
E pôs um ovo que tinha
mais valor que muito doce.

Mais valor que muito doce,
que mil ovos de galinha:
era de oiro e acabou-se
a miséria na cozinha.

de "O meu primeiro álbum de poesia"



a Eugénia foi ao "Livro da Tila" de Matilde Rosa Araújo e leu
Balada das vinte meninas friorentas


Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.



a Ilda leu uma tradução livre de "If it be your will" de Leonard Cohen



o Luís leu um poema de José Jorge Letria
de "
Versos para os pais lerem aos filhos em noites de luar"
Cada palavra que leres
há-de alargar o teu mundo
acrescentando sentido
ao que sabes lá no fundo,
e aquilo que tu nomeias
passa a ter nome e lugar,
tesouro de sons soletrado
quando te pões a falar.

Cada coisa que tu dizes
é apenas um começo,
é a fala a ganhar corpo,
o silêncio do avesso.
Cada coisa que tu sonhas
há-de ser depois contada
com a roupa das palavras
à fala bem ajustada.

E aquilo que tu dizes
há-de dar voz ao que sentes,
porque a fala é um canteiro
onde os sons são as sementes.
E aquilo que tu sentes
passa de avós para netos,
é o livro onde se guarda
o tesouro dos afectos.

Cada palavra que nasce
mesmo no centro da fala
é como um tesouro oculto
no recanto de uma sala,
e pode ser um unicórnio,
dragão ou mesmo arlequim,
transformando-se numa pomba
quando a história chegar ao fim.


a Adília e a Maria leram um excerto de "Firmin" de Sam Savage



a Rosa leu um excerto de "Descubra a sua criança interior" de Vera Faria Leal



a Antónia e o Renato leram um excerto de "Cyrano de Bergerac" de Edmond Rostand


De seguida a Cristina propôs a leitura "com sotaque" de:

De tarde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

O Livro de Cesário Verde



e finalmente chegou a hora do piquenique



à hora de comer sempre o diabo traz mais um


des·mo·er
(des + moer)
verbo transitivo e intransitivo
[Informal]  Fazer a digestão. = Digerir, Esmoer

o Pinhal das Areias tem uma nova inquilina


Leopoldina