Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que ajudem a pôr em prática esta actividade.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

A poesia é para comer

e assim terminámos mais um ano de CLeVA

em FESTA!



a Cristina leu de Eduardo White

Das palavras

Não mordas assim as palavras para que não te surpreendas, não as decepes. Não deixes a espada vil da mentira roubar-lhes a alegria. Quando as disseres aperta-as contra o peito. Faz um esforço por senti-las. Nas palavras cabem sempre o que para isso for preciso. Entra dentro delas como um milagre, como se uma pedra, de repente, se tornasse numa cigarra, como se o mar inteiro não te afogasse. Não as fites para as afastar. Não as rejeites. Pensa-as muitas vezes. As palavras não podem acordar com essa intenção de magoar. Distingue-as, toca nelas lentamente. Deixa que sejam limpas, que tenham chão, que façam vento. Dá-lhes a frescura de um limão, o êxtase que nelas se pode demorar. Não as digas, beija-as. As palavras povoam o que tu não podes povoar.


a Catarina e a Madalena deram o mote



o Luís e a Cristina leram de Jorge Bicho

Poema ao jantar

Olá, que estás a fazer?
O jantar.
O que é que vais fazer?
Um poema…
Só um poema, ou alguma coisa para acompanhar?
Sim, vou juntar-lhe o tempo…
e meia dúzia de pensamentos, dos mais pequenos…
Posso ajudar-te?
Claro, fazemos para os dois.
Passa-me aquelas palavras…
Quais?
As que estão por aí sem norte, desarmadas e frias.
E servem?
Vais ver, tenho um truque que as torna de ler e chorar por mais.
Não estão duras?
Com um pouco de paciência e cozedura lenta, amolecem.
Espera, preciso de bater primeiro o coração.
Queres que bata?
Bate comigo, os dois somos o número ideal.
Põe mais beijos…
mais, não deixes cair muitos de uma vez.
Tem já uma bela cor!
estou a ficar cheio de fome.
então pega no meu corpo e aquece-o,
Não deixes queimar, mexe sempre os olhos,
repara na cidade e nas sombras que diminuem.
cuidado não vá engrossar esse modo de ser.
Já podemos juntar tudo?
Falta-me a ternura, não sei se restou alguma,
tive um poema enorme a semana passada.
espera, já cresceram mais umas folhas.
Apanha com cuidado, para a deixar crescer outra vez.
Agora basta que me tenhas e me queiras,
Junta o ramo de cheiros que a tua memória colheu
Cheira, como é boa essa pitada de loucura que juntaste.
Vá, senta-te, Vou servir.
Pão?
Não, prefiro assim.
Traz o vinho
Tinto?
Claro, e tu senta-te, não quero começar sem ti.

de "Por dentro das palavras"


o Renato leu de Hilda Hilst

II

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

de "Alcoólicas"



a Ana Maria e a Virgínia leram de José Carlos Ary dos Santos

Auto-retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.


de "Fotos-grafias"



a Maria Teresa e o Tomás leram de Mário Castrim


Laranja

Arredondou-me
O tempo.
Verde.
Depois
Dei por mim
A arder
Entre as folhas.
Pesada.
Toda destinada
a c
a
i
r.
Terás
De rasgar-me
O vestido.


Maçã

A chama sã fechou-se no recinto.
Punho fechado.
Seio.
Dia a ver.
Derrama sangue dente a dente.
Resiste.
No fundo, está a semente.


Cereja

Sem
Peso
Um quase
Brilhante
Baloiça
De loiça
Verniz
Um brinco
Do instante.


Pêra

Fosse outra coisa – e talvez fosse um sino.
Fosse outra coisa – e era um coração.
Mas é o que é
Que é muito mais
Que ser o que não é.
Nem desanima
De ter só um pé
E mesmo esse em cima
No sítio onde em geral o pé é mão.

de "Histórias com juízo"



a Celina leu, com a ajuda do António e da Maria

Receita para um caminho naturalmente feliz

Ingredientes

1 poema de Alberto Caeiro
2 estrofes de José Carlos Ary dos Santos
1 quadra de José Afonso
5 versos de Manuel Alegre
39 sílabas de Eugénio de Andrade
1 pequeno poema de Sebastião da Gama
2 versos de David Mourão-Ferreira
22 palavras de Antoine de Saint-Exupéry (para polvilhar)

TEMPO DE PREPARAÇÃO: Todo o caminho (uma vida)
DIFICULDADE: Moderada (dependendo das escolhas feitas)

PREPARAÇÃO

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.
Onde estivermos, há-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, há-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.

Amigo, maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...

…e apenas ouves o vento
e apenas ouves o mar…

Assim é e assim seja...



a Margarida e a Maria leram

Frutos e Guardador de rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Eugénio de Andrade e Alberto Caeiro



João Duarte Victor leu de Nuno Júdice

Verbo

Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.
Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.
Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.
Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.

de "As coisas mais simples"




a Ana Maria e a Vitória leram

Rifão quotidiano

Uma nêspera estava na cama
Deitada
Muito calada
A ver o que acontecia.

Chegou a velha e disse:
Olha, uma nêspera!
E zás! Comeu-a.

É o que acontece às nêsperas
Que ficam caladas
Deitadas
A esperar o que acontece.

Mário Henrique Leiria

A Uma Cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.
Abrir os braços,acolher nos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade



a Ana Brandão e a Anabela leram de Álvaro de Campos

Dobrada à Moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.



a Eugénia e a Rosa leram de Vinicius de Moraes

Feijoada à minha moda

Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia eu prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora - perdoe - tão tarde

(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.

E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte

Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho - e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo

Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks.

Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)

E - atenção! - segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça

Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? - tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) - e chega.

Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria - e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
- Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...

Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... - jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes.



o António e a Mariana leram

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te portuguez..
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa


Meditação na pastelaria

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade...
(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não...)

Filhos tivemos um:
Desapareceu...
E já nem sei chorar!

Chorar...
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...

Perdi tudo, quase tudo...

Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Alexandre O´Neill



a Helena, a Graciete e a Cristina leram de Gez Walsh

Problemas à hora do banho

Estava eu muito bem na banheira
a passar um bom bocado sem ninguém à minha beira
quando de repente me vi numa aflição.
Estava assim sentado sem pensar em nada,
a imitar aviões no ar e a fazer bolas de sabão.
Mas naquele momento só houve uma coisa
que de facto me interessou à maneira,
será que o meu dedo grande do pé cabia no buraco da torneira?
Empurrei o dedo com quanta força tinha,
e ele conseguiu passar,
apesar da entrada ser apertadinha.
A princípio a sensação agradou-me,
mas depois pus-me logo a gritar.
O pé já estava a ficar roxo
e eu sem saber o que fazer para o tirar.
A minha mãe veio a correr à casa de banho
e disse: Porque é que estás a gritar dessa maneira?
Os vizinhos vão-te ouvir,
e já agora, porque é que tens o dedo na torneira?
Então eu pedi-lhe: Mãe, ajude-me, por favor,
o dedo ficou preso.
Ela deu voltas ao dedo, puxou
mas não conseguiu e, a arfar de tanto esforço, disse:
Vou falar com o teu pai
a ver se ele tem alguma ideia,
não me demoro nada,
portanto não saias daí.
Dali a um minuto
o meu pai entrou e disse: Ele há cada acidente!
Tinha a cara encarnada e vinha de cabeça quente,
parecia mesmo demente,
como se nem sequer fosse ali residente.
Abanou a cabeça,
disse que me faltava um parafuso
e saiu para ir à garagem
buscar ferramentas que há muito não tinham uso.
A minha irmã apareceu e escangalhou-se a rir.
Tentei tapar-me
Enquanto a minha mãe esvaziava a banheira.
A minha mãe deu-me uma toalha
para eu tapar a pilinha,
o meu pai conseguiu desapertar a torneira
e eu senti-me pior que uma velhinha.
Tivemos de ir ao hospital
Para me tirarem a torneira.
Entrei na sala de espera
com uma torneira num pé e um sapato no outro.
Fui a coxear sentar-me numa cadeira,
Fingindo ignorar toda aquela gente
Que mal me viu se pôs a rir.
Um velhote aproximou-se e disse-me ao ouvido:
Espero que não leves a mal isto,
mas sapateado de torneira
é que nunca tinha visto!
A enfermeira, essa, ria que nem uma desalmada,
enquanto me libertava e tirava a torneira para fora.
E a minha mãe disse-me: Que isto te sirva de lição-
Pronto, ok, para mim só duche, a partir de agora.

Tradução de Hélder Moura Pereira



a Cristina leu de Natália Correia

A defesa do poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.




comemos?



obrigado a todos :)

foi bonita a festa

vinho


começámos por assistir ao pôr do sol

e por um copo de vinho

a Cristina leu-nos um pouco de "A Casa de Papel" de Carlos María Domínguez

a Teresa sugeriu-nos "O que diz Molero" de Dinis Machado


e de seguida mergulhámos no vinho


a Ana, o António e a Luísa leram-nos um excerto de
"O país das uvas" de Fialho de Almeida


a Ana Maria e a Virgínia leram um excerto de "Vindima" de Miguel Torga


o Renato leu-nos um pouco de "Reviver o passado em Brideshead" de Evelyn Waugh


o Luís também escolheu "Vindima" de Miguel Torga


a Alexandra leu "Em louvor do vinho" de Fausto José, de "Cancioneiro do vinho português"


a Maria e a Margarida leram um excerto de "Pranto de Maria Parda" de Gil Vicente


a Teresa leu um excerto de


(...) No dia seguinte o rapaz chegou à praia, sentou-se ao lado da Menina do Mar e disse:
- Hoje trago-te uma coisa da terra que é bonita e tem lá dentro alegria. Chama-se vinho. Quem bebe fica cheio de alegria.

Enquanto dizia isto o rapaz pousou na ar um copo cheio de vinho. Era um daqueles copos muito pequenos que servem para beber licores. A Menina do
Mar segurou o copo com as duas mãos e olhou o vinho cheia de curiosidade, respirando o seu perfume.

- É muito encarnado e muito perfumado - disse ela. - Conta-me o que é o vinho.

- Na terra -- respondeu o rapaz - há uma planta que se chama videira. No Inverno parece morta e seca. Mas na Primavera enche-se de folhas e no Verão enche-se de frutos que se chamam uvas e que crescem em cachos. E no Outono os homens colhem os cachos de uvas e põem-nos em grandes tanques de pedra onde os pisam até que o seu sumo escorra. E a esse sumo dos frutos da videira que chamamos o vinho. Esta é a história do vinho, mas o seu sabor não o sei contar. Bebe se queres saber como é.

E a Menina bebeu o vinho, riu-se e disse:

- É bom e é alegre. Agora já sei o que é a terra. Agora já sei o que é o sabor da Primavera, do Verão e do Outono. Já sei o que é o sabor dos frutos. Já sei o que
é a frescura das árvores. Já sei como é o calor duma montanha ao sol. Leva-me a ver a terra. Eu quero ir ver a terra. Há tantas coisas que eu não sei. (...)

Sophia de Mello Breyner Andresen



o Fernando leu o conto "Primeira mão" de Rui Zink de "Antologia do humor português"
e num ambiente ainda mais descontraído, leu ainda "Cântico tinto" de J. M. de Matos Vila





a Cristina leu
(...) Facilitam, também a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa mais, além do vinho, que aí deves buscar.
Muitas vezes, braços delicados, os lançou o Amor, de rosto afoguedada,
sobre os chifres apertados de Baco, bem bebido;
e quando o vinho se espalhou sobre as asas esponjosas de Cupido,
ali fica e permanece prostrado do peso no lugar onde estava;
e logo sacode, à pressa, as penas encharcadas,
mas as próprias gotas sacudidas pelo amor são danosas ao coração.
O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de vinho puro;
chega, então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.
Ali, muitas vezes as moças arrebataram os corações dos rapazes,
e Vénus, no vinho, tornou-se fogo no fogo.
Aqui, não te fies tu em demasia nas luzes enganadoras;
na apreciação da formosura, são danosos a noite e o vinho.
Foi à luz do dia e com céu desanuviado que Páris contemplou as deusas,
quando disse a Vénus: “és tu quem leva de vencida as outras duas”.
De noite, ficam disfarçados os defeitos e desculpam-se todos os vícios;
essa é a hora que torna famosa qualquer uma;
consulta, antes, a luz do dia a respeito das gemas, da lã tingida de púrpura,
consulta-a a respeito do rosto e do corpo. (...)

Excerto de "Arte de Amar" de Ovídio
tradução de Carlos Ascenso André

e ainda

Embriagai-vos

É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isto; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.

Mas – de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:

É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.

Charles Baudelaire
de Pequenos Poemas em Prosa (O Spleen de Paris)
Trad. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira


e continuámos pela noite dentro

próxima sessão | 16 Junho 2015

é o tema

será responsável pelo livro do dia

ser criança


Antes de entrarmos no tema da sessão falámos de outras leituras em voz alta

- nasceu outro clube de leitura em voz alta, chama-se "Leituras da Escola Comunitária de Alcochete".
Eis um resumo fotográfico de uma das sessões:




- voltámos a falar da "Leitura Furiosa" deste ano

a Cristina falou-nos do Cancioneiro Infanto-Juvenil do Instituto Piaget.
Com o tema "Ser criança" seria inevitável falar do grande Manoel de Barros



a Cristina falou-nos ainda de "Infância roubada", uma antologia de textos de autores portugueses que falam da sua infância, numa organização de Matilde Rosa Araújo
e leu deste mesmo livro:

ficou da infância a febre

ficou da infância a febre
de correr parado
pelas estradas

podes chamar-lhe versos
são viagens

ficou na infância a fisga
de arremessar ao vento

podes chamar-lhe versos
são pedradas


 
vamos brincar?



a Celina leu um excerto de «Num meio dia de fim de primavera» de Alberto Caeiro


e a Maria leu-nos o excerto que faltava deste mesmo poema


o Fernando leu, com a ajuda de todos
Pois pois

O Padre António Vieira pregava de encostar as orelhas na boca do bárbaro.
Que para ouvir as vozes do chão
Que para ouvir a fala das águas
Que para ouvir o silêncio das pedras
Que para ouvir o crescimento das árvores
E as origens do Ser. Pois Pois.
Bernardo da Mata nunca fez outra coisa
Que ouvir as vozes do chão
Que ouvir o perfume das cores
Que ver o silêncio das formas
E o formato dos campos. Pois Pois.
Passei muitos anos a rabiscar, neste caderno, os escutamentos de Bernardo.
Ele via e ouvia inexistências.
Eu penso agora que esse Bernardo tem cacoete para poeta


O livro de Bernardo

1

Os meninos me letram de Bandarra.
(Bandarra é cavalo velho solto
no pasto, às moscas.)
Esse é meu estandarte.

2

Não tenho pensa.
Tenho só árvores ventos
passarinhos – issos.

3

Dentro de mim
eu me eremito
como os padres do ermo.

4

Meus caminhos
a garça
redime.

5

Sou aquele
que gastou a sua história
na beira de um rio.

6

Estes brejos amanhecem
amarrados
de conchas.

7

A voz dos sapos de tarde
é destroncada
por dentro.

8

O sol transborda
nas estradas
e no olhar das sariemas.

9

Ao lado de uma lara
de uma pedra
estou conforme.

10

Passarinhos do mato
gostam de mim
e de goiaba.

11

Cavalos entardecem
na beira do mato –
onde entardeço.

12

Uma rã me benzeu
com as mãos
na água.

13

Caramujos sempre chegam depois.
Representa que estão chegando
da eternidade.

14

Meu desagero
é de ser
fascinado por trastes.

15

O silêncio
está úmido
de aves.

16

Registros de lagartixas
nas ruínas:
elas têm sabimentos de pedras.

17

Vi o verão
no meio das pedras
e um lagarto.

18

A chuva
azula a voz
das andorinhas

19

Eternidade
é palavra
encostada em
Deus.

20

Águas que sabem
a pedras
sabem a rãs.

21

Sapos sabem divinamentos
mais do que as árvores
mais do que os homens.

22

O sangue do sol
nas águas
atrai mariposas.

23

Sou livre
para o silêncio das formas
e das cores.

24

Caracóis
não gosmam
em latas.

25

Ocupo função de exílio
quando anoitece
nas águas.

26

Passam formigas perdidas
no lado esquerdo
da casa.

27

No olho songo
do lagarto
nasce um pedaço de nuvem.

28

O corpo do rio prateia
quando a lua
se abre.

29

Na beira da mosca
o céu parou
o dia parou.

30

O dia estava
em condições de boca
para as borboletas.

31

O lírio
e as garças
são imaculantes.

32

Sou beato de águas
de pedras
e de aves.

33

De tarde
cigarras
arrebentavam o verão.

34

Dentro dos caramujos –
há silêncios
remontados.

35

Quem ornamenta o azul
das manhãs
são os sabiás.

36

Estou pousado em mim
igual que formiga
sem rumo.

37

Com fios de orvalho
aranhas tecem
a madrugada.

38

Eu vi que a noite dormia
escorada
nos arvoredos.

39

Andorinhas passeiam
na chuva
e no meu ocaso.

40

Quase vestida de sol
vi a chuva
em cima do morro.

41

Palavras
Gosto de brincar com elas
Tenho preguiça de ser sério.

42

Tenho candor
por bobagens
Quando eu crescer eu vou ficar criança.

43

Bom é
constar das paisagens
como um rio, uma pedra.

44

Meu requinte
é chegar às vilezas
com castidade.

45

Passarinho
faz árvore de tarde
nos andarilhos.

46

Poeta
é uma pessoa
que reverdece nele mesmo.

47

Reconhecer a eminência
dos insetos
leva à sabedoria.

48

Pelo corpo
das latas podres
relvam rosas.

49

As garças
quando alçam
se entardecem.

50

Já me dei ao desfrute
de ser ao mesmo tempo
pedra e sapo.

51

Preciso de alcançar
a indulgência
pedral.

52

Uma açucena
me convidou
para de noite.





a Luísa leu um excerto de «A língua posta a salvo», de Elias Canetti



o Renato leu «Ser criança» de Madalena e um excerto de «O Deus das Moscas», de William Golding



a Margarida e a Virgínia leram, de Alice Gomes "Na idade dos porquês"

Na idade dos porquês


Professor diz-me porquê?

Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto  mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta  professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.




a Teresa leu um excerto do conto «A volta por cima», de Fernando Sabino



o Tomás e a Maria Teresa leram «O dromedário descontente», de Jacques Prévert

O dromedário descontente

Era uma vez um jovem dromedário que não estava nada contente. Na véspera, dissera ele aos amigos: “Amanhã vou sair com o meu pai e com a minha mãe, vamos ouvir uma conferência, ora vejam!” Os outros tinham dito: “Olha, olha, ele vai ouvir uma conferência, que maravilha”. Não pregara olho toda a noite, tal era a sua impaciência. E agora não estava contente porque a conferência não era nada do que imaginara: não tinha música e era uma decepção, estava aborrecidíssimo e com vontade de chorar. Havia uma hora e três quartos que um senhor gordo falava. Diante do senhor gordo havia um jarro de água e um copo de dentes sem escova. De tempos a tempos, o senhor deitava água no copo mas nunca lavava os dentes e, visivelmente irritado, falava de outra coisa, isto é, dos dromedários e dos camelos. O jovem dromedário estava cheio de calor e, além disso, a bossa incomodava-o muito porque roçava nas costas da cadeira. Estava muito mal sentado, mexia-se e remexia-se. Então, a mãe dizia-lhe: “Está quieto, deixa falar o senhor”, e dava-lhe beliscões na bossa. O jovem dromedário tinha cada vez mais vontade de chorar, de se ir embora… De cinco em cinco minutos o conferencista repetia: “Sobretudo, há que não confundir os dromedários com os camelos. Chamo a vossa atenção, minha senhoras, meus senhores e caros dromedários, para este facto: o camelo tem duas bossas, mas o dromedário só tem uma!” Todas as pessoas na sala diziam: “Ah, ah, muito interessante”, e os camelos, os dromedários, os homens, as mulheres e as crianças tomavam notas nos seus canhenhos.

Depois tornava o conferencista: “O que distingue os dois animais é que o dromedário tem só uma bossa, ao passo que, coisa estranha e que é útil conhecer, o camelo tem duas…” Por fim, o jovem dromedário fartou-se e, saltando para o estrado, mordeu o conferencista. “Camelo!”, disse o conferencista furioso. E toda a gente na sala gritava: “Camelo, porco de camelo, porco de camelo!” E, no entanto, era um dromedário, e todo limpinho.


o Luís leu de Ruy Belo
Algumas Proposições com Crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

de 'Homem de Palavra[s]'


a Ilda leu «A história da criança e do desenho», de Rolf Krenzer

A história da criança e do desenho

Certa vez, uma criança fez um desenho. Demorou muito tempo a terminá-lo e usou todos os lápis de cor que tinha. Depois foi ter com a avó e mostrou-lho.    
— O que é isto? — perguntou à avó. 
 — É um desenho muito bonito e cheio de cor — respondeu a avó.   
— Mas o que é? — insistiu.   
A avó não soube responder.    
A criança foi perguntar ao avô.   
— Isto é quase um Picasso — respondeu o avô a rir.   
— E o que é "quase um Picasso"? — perguntou a criança.   
— Um pintor — foi a resposta do avô.   
— Eu também sou um pintor — disse a criança.   
De seguida foi ter com a irmã mais velha.   
— Usaste mesmo as cores todas! — disse ela.   
— Pois foi. Mas o que é isto?   
— Uma gatafunhada colorida!   
A criança tirou-lhe o desenho e foi ter com o pai que estava à mesa a ler o jornal. A criança pôs o desenho em cima do jornal e não disse nada.   
— Oh! — disse o pai.  — Mas isto é um arco-íris todo colorido muito bonito! Vai de uma ponta à outra. Vai de mim até ti.   
— Exactamente — disse a criança.   
Em seguida, a criança e o pai penduraram o desenho precisamente no local onde a luz do sol se reflectia na parede. 


a Alexandra leu "João", de Luisa Sobral
João

Eu saio da escola sempre à mesma hora
Vejo o João que sai também
Já me fiz de distraída, sorri meio atrevida
Mas o João da C finge que não me vê

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

Não sou a mais bonita e nunca sou escolhida
Quando fazem equipas para o futebol
Se alguém fica doente entro para suplente
E fico sentadinha a apanhar sol

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

O João olhar para mim
O João gostar de mim
Ele está a olhar para mim


a Cristina leu de Manoel de Barros

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


e por fim...

próxima sessão | 2 Junho 2015

será o tema

será responsável pelo livro do dia

voz



a Cristina leu um excerto de "El narrador oral y el imaginario" de Pépito Matéo

o Fernando tentou convencer-nos a ler "No meu peito não cabem pássaros" de Nuno Camarneiro


a Carlota e a Madalena leram um excerto de
"Bíblia - A mais fascinante história"
de Silvia Zanconato
com ilustrações de Abigail Ascenso



a Ana Maria e a Virgínia leram de António Ramos Rosa

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



a Anabela e a Margarida leram excertos de
"A arte de dar peidos" de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut
Ilustrado por José María Lema



a Teresa fez-nos uma visita eu leu de António Torrado


O ovo da galinha

Faltam ovos na cozinha
Não há ovos para o doce.
"Alto lá" disse a galinha
"Ponho um ovo e acabou-se."

"Ponho um ovo e acabou-se.
Amassado com farinha,
se não chega para o doce,
vão dizer que a culpa é minha."

"Vão dizer que a culpa é minha.
Vão dizer: ela baldou-se.
Vão dizer: esta galinha
proibiu que houvesse doce."

"Proibiu que houvesse doce.
Foi tacanha, foi mesquinha.
Nem que fosse! Nem que fosse!",
cacarejou a galinha.

Cacarejou a galinha
e espremeu-se e esforçou-se.
E pôs um ovo que tinha
mais valor que muito doce.

Mais valor que muito doce,
que mil ovos de galinha:
era de oiro e acabou-se
a miséria na cozinha.

de "O meu primeiro álbum de poesia"



a Eugénia foi ao "Livro da Tila" de Matilde Rosa Araújo e leu
Balada das vinte meninas friorentas


Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.



a Ilda leu uma tradução livre de "If it be your will" de Leonard Cohen



o Luís leu um poema de José Jorge Letria
de "
Versos para os pais lerem aos filhos em noites de luar"
Cada palavra que leres
há-de alargar o teu mundo
acrescentando sentido
ao que sabes lá no fundo,
e aquilo que tu nomeias
passa a ter nome e lugar,
tesouro de sons soletrado
quando te pões a falar.

Cada coisa que tu dizes
é apenas um começo,
é a fala a ganhar corpo,
o silêncio do avesso.
Cada coisa que tu sonhas
há-de ser depois contada
com a roupa das palavras
à fala bem ajustada.

E aquilo que tu dizes
há-de dar voz ao que sentes,
porque a fala é um canteiro
onde os sons são as sementes.
E aquilo que tu sentes
passa de avós para netos,
é o livro onde se guarda
o tesouro dos afectos.

Cada palavra que nasce
mesmo no centro da fala
é como um tesouro oculto
no recanto de uma sala,
e pode ser um unicórnio,
dragão ou mesmo arlequim,
transformando-se numa pomba
quando a história chegar ao fim.


a Adília e a Maria leram um excerto de "Firmin" de Sam Savage



a Rosa leu um excerto de "Descubra a sua criança interior" de Vera Faria Leal



a Antónia e o Renato leram um excerto de "Cyrano de Bergerac" de Edmond Rostand


De seguida a Cristina propôs a leitura "com sotaque" de:

De tarde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

O Livro de Cesário Verde



e finalmente chegou a hora do piquenique



à hora de comer sempre o diabo traz mais um


des·mo·er
(des + moer)
verbo transitivo e intransitivo
[Informal]  Fazer a digestão. = Digerir, Esmoer

o Pinhal das Areias tem uma nova inquilina


Leopoldina