Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que ajudem a pôr em prática esta actividade.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

aviso à navegação (o último)

já há poucos bilhetes disponíveis!

é que vale mesmo a pena :)

próxima sessão | 21 Abril 2015

será o tema
***ATENÇÃO***
os textos escolhidos serão obrigatoriamente de autores portugueses nascidos após 1974


será responsável pelo "Livro do Dia"

poesia




a Cristina falou-nos de "Cadernos dum amador de teatro" de António Pedro



a Maria trouxe-nos
"História do Sábio Fechado na sua Biblioteca", de Manuel António Pina



a Celina leu Florbela Espanca, acompanhada pela Mafalda, Maria Beatriz, Gonçalo e João
Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...

                                E não sou nada!...


Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente! 



o Gonçalo leu, de sua autoria
Só para variar

Bem não sei o que hei de dizer
faltam-me as palavras
a criatividade está escassa
por favor eu já não sei o que faça.
   
Revolução, depressão, amor ou emoção
nada bate certo no meu pobre coração
não sinto vontade de escrever
sinto que parte de mim está a morrer.

Sendo assim decidi escrever sobre esta escassez
e provavelmente nada de jeito me sairá
mesmo não sendo a primeira vez
vamos lá ver no que dá.

Política? Não obrigado
Religião? Fica para outro dia
Pobreza? Prefiro não comentar
Solidão? Preciso é de companhia!

Mas quem sabe talvez até seja criativo
escrever sobre esta falta de criatividade
mas quem sabe até seja criativo
para um poeta com 14 anos de idade.

Se for criativo que me digam vossas Excelências
se for inovador que me fale esta sociedade
contudo, neste momento sinto-me vazio
falta-me a minha querida criatividade.

Gonçalo Moreira



a Maria Teresa leu Vergílio Ferreira

Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada
com que se fazem os deuses e a poesia.

excerto do conto Uma esplanada sobre o mar (1986) 



o Tomás leu Manuel Freire
Eles

Ei-los que partem novos e velhos
Buscar a sorte noutras paragens
Noutras aragens, entre outros povos,
Ei-los que partem velhos e novos.

Ei-los que partem, de olhos molhados,
Coração triste, a saca às costas.
Esperança em riste, sonhos dourados
Ei-los que partem, de olhos molhados.

Virão um dia, ricos ou não
Contando histórias de lá de longe
Onde o suor se fez em pão

Virão um dia, ricos ou não.

Virão um dia, ou não.

 in Poetas de hoje e de ontem



a Maria leu Maria Alberta Menéres


Falar de poesia a crianças. Mas como? Dizer o que é a poesia? Dar uma definição rigorosa ou sugestiva?
Há algum tempo assisti a um colóquio em que o tema central era precisamente a poesia.
Era um colóquio para jovens e eu sentava-me junto de alguns, ouvindo alguém que se esforçava por demonstrar que não era possível dizer o que era a poesia.
Ao meu lado, baixinho, para não interromper, o Fernando indignou-se:
- Ora esta!, Mas eu sei o que é…
Eu – Então diz lá.
Fernando – A poesia é a beleza da vida.
Eu – Parece-me que tens razão.
Logo o João se meteu na conversa:
- Então as coisas feias não têm poesia?!
Eu – Parece-me que tens razão: as coisas feias também têm poesia.
Salta o André:
- Nesse caso, a poesia pode ser o sentido das coisas.

(…) A poesia é a beleza e o sentido das coisas e de nós próprios.
É uma maneira de olhar o mundo.
É uma forma de atenção a tudo.
Ela pode estar em toda a parte: nós, às vezes, é que não estamos onde ela está, só porque passamos ou vivemos distraídos.
E outras vezes estamos e encontramo-la.
E outras vezes encontramos a poesia e não a sabemos escrever.

o Luís leu Eduardo White
Não faz mal

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum
sentimento o terá deixado pousar, partido com ele.
Estará o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube.
Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.



a Alexandra leu José Carlos Ary dos Santos
Poeta Castrado Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não! 





a Gabriela leu de Percy B. Shelley, um excerto de Defesa da Poesia




o Fernando leu "Travessa do Diabinho" de Miguel-Manso, de "Tojo - Poemas Escolhidos"



a Ana e a Luísa leram Jorge Castro
Hoje, eu cá celebro Abril 

Aqui ficam outros poemas do autor.


a Teresa leu um excerto de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto


o Renato leu um excerto de O filho do desconhecido de Alan Hollinghurst 


a Margarida leu Ana Paula Lavado
Nenhum verso


Nenhum verso fala de mim
nem do que eu penso
nem do que eu sinto
nem do que eu sou.
Na realidade,
as palavras são apenas
um jogo de letras
mais ou menos cinzelado
ao gosto de cada um.
E poucos, muito poucos
fazem delas seres vivos e humanos.
Eu não lhes dou vida.
Trabalho-as com mais ou menos nexo
ou talvez sem nexo,
porque dele não sinto falta
nem faz falta o que sou!


a Cristina leu, de Sophia de Mello Breyner Andresen
 Arte Poética V

Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.

Um dia em Epidauro — aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas — coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.

Tempos depois, escrevi estes três versos:

    A voz sobe os últimos degraus
    Oiço a palavra alada impessoal
    Que reconheço por não ser já minha.

(Lido na Sorbonne, em Paris, em Dezembro de 1988,
por ocasião do encontro intitulado Les Belles Étrangères)


e não poderíamos acabar sem as tradicionais guloseimas


próxima sessão | 7 Abril 2015

será o tema


será responsável pelo "Livro do Dia"

mergulho



uma sessão muito concorrida:
membros do CLeVA actual e de anteriores e seus convidados.
Todos dispostos a mergulhar...

Morreu Herberto Helder, o extraordinário poeta. Ficaram connosco as suas palavras.


a Cristina leu de Herberto Helder 
(também para celebrar o Dia Mundial do Teatro)

O actor

O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor põe e tira a cabeça
de búfalo,
de veado,
de rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura, monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã na sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humanidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente
como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo. E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia,
corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é a transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gasifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas.
O actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor,
como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral

O actor em estado geral de graça.


de "Poemas Completos"



a Ana trouxe-nos Livro de Maldições, de Valter Hugo Mãe,
mas a escolha primeira teria sido O filho de mil homens



 a Celina e a Delfina fizeram-se acompanhar por Gonçalo Moreira, João Rodrigues, Mafalda Alegria e Maria Mendes, Guitarristas do Conservatório Regional de Artes do Montijo, que tocaram as peças: «À Luz da Eternidade» - 1.º Andamento de uma suite de Titus Isfan  e »Navegar, Navegar» de Fausto; e leram

Navegar... A-Mar... Mergulhar

Navegar é preciso... viver não é preciso... Navegar é preciso..."

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma...     Fernando Pessoa, “O Infante”

Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar
Depois, abri o mar com as mãos
Para o meu sonho,
naufragar.                                   Cecília Meireles, “ Naufrágio”

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.      Alexandre O’ Neil, “Gaivota”

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
 O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.         Joaquim Pessoa, “Bastava-nos amar”

Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu,
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro,
Esse olhar que era só teu,
Amor que foste o primeiro.   Alexandre O’ Neil, “Gaivota”

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.        Joaquim Pessoa, “Bastava-nos amar”

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada.       José Régio, “Fado Português”

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.    Joaquim Pessoa, “Bastava-nos amar”

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas
entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.       Cecília Meireles, “ Naufrágio”

Navegar, navegar
Mas ó minha cana verde
Mergulhar no teu corpo
Entre quatro paredes.
Dar-te um beijo e ficar
Ir ao fundo e voltar
Ó minha cana verde
Navegar, navegar …    Fausto Bordalo Dias, “Navegar, Navegar”



a Ana Brandão leu Dá um mergulho no mar, de Tim

Dá um mergulho no mar,
Dá um mergulho sem olhares para trás,
Dá um salto no ar,
Só para veres do que és capaz,
Arrisca mais uma vez,
Nem que seja só por arriscar
Nunca se ter muito a perder,
Dá um mergulho no mar;
Há tantas coisas por fazer,
E tantas por inventar,
Dá um mergulho no mar!

E tu vais ver,
Tu vais jogar,
Tu vais perder,
Tu vais tentar,
Mais uma vez,
E tu vais ver,
E tu vais rir,
Tu vais ganhar!

Tens pouco tempo para ser só teu,
Não esperes nem deixes passar,
Essa vontade que quer - dar um mergulho no mar,
Arrisca mais uma vez,
Nem que seja só por arriscar
Nunca se ter muito a perder,
Dá um mergulho no mar,
Há tantas coisas por fazer,
E tantas por inventar,
Dá um mergulho no mar!

E tu vais ver,
Tu vais jogar,
Tu vais perder,
Tu vais tentar,
Mais uma vez,
(tu vais jogar)
E tu vais ver,
(tu vais gostar)
Tu vais chorar,
E tu vais rir,
Dá um mergulho no mar!

Há-de chegar o dia,
Em que vais querer parar,
Até chegar esse dia,
Quero-te ver a saltar!

E tu vais ver,
Tu vais jogar,
Tu vais perder,
Tu vais tentar,
Mais uma vez,
(tu vais jogar)
E tu vais ver,
(tu vais gostar)
Tu vais chorar,
E tu vais rir,
Dá um mergulho no mar!

Yeah Yeah,
Yeah Yeah, Tu vais jogar,
Yeah Yeah
Yeah Yeah, Tu vais gostar,
Yeah Yeah,
Yeah Yeah, E tu vais rir,

Dá um mergulho no mar!



a Helena e a Maria João leram um excerto de As vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne



o António e a Mariana leram de Fernando Pessoa
O Mostrengo

 O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

in Mensagem, 1934



a Ana e a Luísa leram um excerto de O navio branco, de Tchinguiz Aitmatov



o Bernardo, a Maria, a Margarida e a Anabela leram um excerto de Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach 



a Helena leu de Sophia de Mello Breyner Andresen

Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.



a Rosa e a Eugénia leram um excerto de O Planeta Árvore de Cristiano Gamega



a Helena, a Cristina e a Graciete leram Navegar, Navegar, de Fausto
Navegar Navegar

Navegar navegar 
Mas ó minha cana verde 
Mergulhar no teu corpo 
Entre quatro paredes 
Dar-te um beijo e ficar 
Ir ao fundo e voltar 
Ó minha cana verde 
Navegar navegar 

Quem conquista sempre rouba 
Quem cobiça nunca dá 
Quem oprime tiraniza 
Naufraga mil vezes 
Bonita eu sei lá 

Já vou de grilhões nos pés 
Já vou de algemas nas mãos 
De colares ao pescoço 
Perdido e achado 
Vendido em leilão 
Eu fui a mercadoria 
Lá na praça do Mocá 
Quase às avé-marias 
Nos abismos do mar 

navegar navegar... 

Já é tempo de partir 
Adeus morenas de Goa 
Já é tempo de voltar 
Tenho saudades tuas 
Meu amor 
De Lisboa 

Antes que chegue a noite 
Que vem do cabo do mundo 
Tirar vidas à sorte 
Do fraco e do forte 
Do cimo e do fundo 
Trago um jeito bailarino 
Que apesar de tudo baila 
No meu olhar peregrino 
Nos abismos do mar.


a Alexandra e a Cíntia leram Sol da Caparica, de João Pedro Almendra
Sol da Caparica

Descapotável pela ponte o cabelo a voar
o calor abrasador e a pressa de chegar
óculos escuros da rayban e o cantante a partir
a cassete dos ramones para a gente curtir

Aqui vou eu
para a costa
aqui vou eu vou cheio de pica
de Lisboa vou fugir
vou pó sol da caparica

Abancados na esplanada mesmo à beira do mar...
cerveja na mesa para refrescar
ao longo da praia sob o sol de verão...
as miúdas da costa são uma tentação

por isso vou
para a costa
por isso vou cheio de pica
viro costas a Lisboa
vou pó sol da caparica

e assim vamos gozando as ferias de verão...
tenho o sol da caparica mesmo aqui à mão

Aqui vou eu.uhhhhhhh
aqui vou eu..uhhhhhhhh

de Lisboa vou fugir...vou pó Sol da Caparica



a Gabriela leu um excerto de Debaixo de algum céu, de Nuno Camarneiro


a Madalena e o Renato leram Camila vai à praia, de Aline de Petigny e Nancy Delvaux

o Renato e o Luís leram Navio naufragado de Sophia de Mello Breyner Andresen
Vinha de um mundo
Sonoro, nítido e denso.
E agora o mar o guarda no seu fundo
Silencioso e suspenso.

É um esqueleto branco o capitão,
Branco como as areias,
Tem duas conchas na mão
Tem algas em vez de veias
E uma medusa em vez de coração.

Em seu redor as grutas de mil cores
Tomam formas incertas quase ausentes
E a cor das águas toma a cor das flores
E os animais são mudos, transparentes.

E os corpos espalhados nas areias
Tremem à passagem das sereias,
As sereias leves dos cabelos roxos
Que têm olhos vagos e ausentes
E verdes como os olhos de videntes.




o António e a Adília leram Celebrações, de Herberto Helder


a Ana Maria e a Vitória leram excertos de Diário de Anne Frank



a Virgínia leu um excerto de Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez


a Ilda e a Ana Maria leram O acto poético de Eugénio de Andrade
O acto poético é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo do conhecimento, que é também fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra. Nesse mergulho do homem nas suas águas mais silenciadas, o que vem à tona é tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o espírito humano atenta mais facilmente nas diferenças do que nas semelhanças, esquecendo-se, e é Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, tão fiel ao homem, acaba por ser palavra de escândalo no seio do próprio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer são capazes de imaginar. Palavra de aflição mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa até quando nos diz o silêncio, pois esse ser sedento de ser, que é o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência. 

 in Rosto Precário



o Paulo leu Mar adentro, de Ramon Sampedro



Mar adentro

Mar adentro, mar adentro,
y en la ingravidez del fondo,
donde se cumplen los sueños,
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno,
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo;
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril,
y el más puro de los besos,
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras:
más adentro, más adentro...
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.


a Antónia leu Quando acordei e senti...de Karla Fabricya


a Maria Teresa e o Tomás leram Anfibiologia, de Mário-Henrique Leiria
Anfibiologia

Ainda conseguiu voltar à superfície e pôr outra vez a
cabeça fora de água.

Então deram-lhe mais uma bordoada com a pá do remo,
sólida e certeira, bem no alto da cabeça.

Ao mergulhar definitivamente, engolindo água e sentindo-se ir para o fundo, teve um último pensamento lúcido: «que felizes devem ser os anfíbios!»


in Novos Contos do Gin



a Antónia leu Mar sonoro, de Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.

 in Dia do Mar, Obra poética I