A partir de Outubro de 2017, a iniciar o seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passa a Coro de Leitura em Voz Alta. Continuará a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passará a ser outra.

2012.09.22 - Fábulas



a Cristina começou por ler um poema inédito, escrito recentemente na residência literária da Foz do Cobrão, inserida no evento "Poesia, um dia" da Biblioteca Municipal José Baptista Martins de Vila Velha de Ródão, da autoria
de Jaime Rocha, Margarida Vale de Gato e José Mário Silva.

Poema Ingénuo comprometido
15 se setembro 2012

O que é um país à procura de futuro?
Coitado de um país que procura um futuro
e só encontra muros e cinza.

Um país sem luz, sem geografia,
com uma mágoa metida no tronco.
Um país doente que rói os ossos
e bebe água por um tubo pequeno.
Um país invadido por um deserto,
sem palavras, um país final.

O que é um país à procura de futuro?
Um país que se levanta inteiro
numa tarde quente.



a Helena e Eugénia leram "Assembleia dos Ratos" de Esopo

a Antónia leu  a versão de Bocage da "A cigarra e a formiga" de La Fontaine

Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o Verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
'Té voltar o aceso Estio.

- Amiga - diz a cigarra -,
Prometo, a fé de animal,
Pagar-vos, antes de Agosto,
Os juros e o principal.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
- No Verão em que lidavas? -
À pedinte, ela pergunta.

Responde a outra: - eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
- oh! Bravo! - torna a formiga. -
Cantavas? Pois dança agora!


a Cristina leu "Velha fábula em bossa nova" de Alexandre O´Neill

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

(- Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)



a Fernanda, a Cristina, a Graciete e a Helena, leram "Aos Poetas" de Miguel Torga


Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos…
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar…

Somos nós e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem mas ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis,
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.


a Ana leu o "Canguru marinheiro" de autor desconhecido


a Ana Maria leu-nos um excerto do livro "Alice no país da alimentação" de Nuno Cardoso Dias, que vai ser publicado pela Associação de diabéticos de S. Miguel e Sta Maria


a Isabel leu "O carvalho e o caniço" de La Fontaine


a Helena leu um excerto de "Fernão Capelo Gaivota" de Richard Bach


a Adília leu "O rato do campo e o rato da cidade" de Esopo
O rato da cidade e o do campo.

Um rato que morava na cidade, foi dar um passeio ao campo. Recebeu‐o um amigo que o levou para os seus palácios subterrâneos, e deu‐lhe um banquete de ervas e raízes. Maldizendo em presença de tais iguarias a louca lembrança do seu rústico passeio, o rato da cidade, obrigado a jejuar, disse por fim:
"Amigo, tenho dó de ti; como te podes resignar a semelhante vida? vem comigo para a cidade, verás o que é fartura, o que é viver. O outro aceitou. À noitinha estavam ambos numa bela e rica residência, com uma rica dispensa; queijos, lombos, o perfumado toucinho, tudo os incitava; desforrando ‐se de sua longa dieta, o rato do campo regalava‐se. De súbito range a porta, entra o despenseiro: vem com ele dois gatos.
O rato da casa achou logo o seu buraco; o hóspede, ‐ sobressaltado, pulando de prateleira em prateleira, mal escapou com a vida, e despedindo‐se do amigo: "Adeus,
camarada, disse, ficai‐vos com as vossas farturas; mais vale magro e faminto no mato, do que gordo na boca do gato.

MORAL DA HISTÓRIA.
‐ Sem sossego e paz de espírito de que valem os outros bens?

o António leu excertos de "A cozinha canibal" de Roland Topor


o Fernando leu "O imperador Ho Sin" de Woody Allen

O imperador Ho Sin teve um sonho em que contemplava um palácio maior que o seu e cuja renda era metade da sua. Ao atravessar os portais do edifício, Ho Sin verificou subitamente que o seu corpo voltava a ser jovem, embora a cabeça permanecesse entre os sessenta e cinco e os setenta anos. Ao abrir uma porta, deu com outra porta, que dava para outra; em breve se deu conta de que tinha cruzado cem portas e que se encontrava agora num pátio das traseiras.
Quando Ho Sin já se sentia no limiar do desespero, um rouxinol pousou-lhe no ombro e cantou a mais bela canção que lhe fora dado ouvir e depois bicou-lhe no nariz. Escarmentado, Ho Sin viu-se a um espelho e, em vez de contemplar o seu próprio reflexo, viu um homem chamado Mendel Goldblatt, que trabalhava na Fábrica de Bombas Wasserman, que o acusou de lhe ter roubado o sobretudo.
Graças a isto, Ho Sin descobriu o segredo da vida, que era «Nunca cantes melodias tirolesas».


a Alexandra leu "A menina do capuchinho vermelho" de Roald Dahl de Histórias em versos para meninos perversos

«Como estou farto de fazer de bobo!»
Disse, cheio de fome, o senhor lobo.
«Há quatro dias que não trinco osso,
A avozinha vai ser o meu almoço.»
Quando a avozinha lhe abriu a porta
Com o susto tremeu e, meia morta,
Fitou aqueles dentes a brilhar.
«Ai, que o malvado me quer devorar!»
A pobre senhora tinha razão
Porque ele a comeu com sofreguidão.
A avozinha era pequena e dura,
O almoço não foi uma fartura.
«Ai, estou com uma fome aterradora,
Pronto para comer outra senhora.»
Foi procurar petiscos na cozinha
Mas nada para roer o bicho tinha.
«Vou-me sentar no colchão de folhelho
À espera do Capuchinho Vermelho.»
Disse o lobo enquanto se vestia
Com as roupas que por ali havia.
Saia de seda, botas de verniz,
Chapéu de veludo foi o que quis.
Escovou o pelo, as garras pintou,
Bem disfarçado assim se sentou.
Um pouco depois, em passo apressado,
A moça chegou, toda de encarnado.
«Ó minha avozinha, quero saber,
As tuas orelhas estão a crescer?»
«Sim, minha neta, para melhor te ouvir.»
«Que grandes olhos tens, querida avó»,
Disse a menina cheia de dó.
«São para melhor te ver», disse o lobo
E pôs-se a pensar: «Não sou nenhum bobo,
Esta bela menina vou papar,
Que bom petisco para o meu jantar.
Vai saber-me que nem um pão de ló,
Não é velha nem dura como a avó.»
«Mas avozinha», disse a menina,
Tens um casaco de pele tão fina.»
«Não», disse o lobo, «Deves perguntar
Por que são meus dentes de espantar.
Bem, digas tu o que disseres
Como-te sem prato nem talheres.»
A menina sorriu. Da camisola
Sacou de imediato uma pistola
E com uma certeira pontaria
Pum, pum, pum, aquele lobo morria.
Passaram os dias, passou um mês,
Vi a menina no bosque outra vez,
Mas sem o capuz, sem capa encarnada,
Toda diferente, toda mudada.
Sorrindo me explicou: «Daquele bobo
Fiz este casaco de pele de lobo».


a Ana Paula leu "Como o sr de La Fontaine puxa as orelhas à república dos homens pondo a falar o reino dos animais" de "100 fábulas de La Fontaine" antologia de José Viale Moutinho


o nosso público leu "A lebre e a tartaruga"





entretanto fomos à procura de um trovisco

porque o Miguel tinha uma fábula para nos ler sobre esta planta
Trovisco

“O trovisco, Daphne gnidium, como muitas outras plantas, colhia-se preferencialmente na noite de S. João porque nessa noite tinha maiores poderes mágicos.
Considerava-se que seria um amuleto eficaz contra os esconjuros e acreditava-se que servia de proteção contra as bruxas.
Utilizava-se para combater as sezões que provocavam arreliadoras febres intermitentes.
Para que produzisse efeito, era imprescindível seguir um costume tradicional recolhido por Francisco Rodriguez Marín.
O alquebrado das febres procurava uma moita de trovisco e quando a encontrava, saudava-a como se tratasse de uma pessoa-
- Olá senhor Trovisco, quero-lhe dar conhecimento de que sofro de sezões e venho aqui para as deixar. De modo que já sabe!
Após saudar a planta tão cortesmente, o paciente pisava-a, golpeava-a e torcia-a. Depois afastava-se uns metros e acercava-se de novo, dizendo:
- Senhor Trovisco esta foi a primeira vez! Se as sezões não me deixarem, volto de novo e o senhor vai inteirar-se disso.
Feita a ameaça e cumprido o ritual, eis que a crença e a transmissão magnética com efeitos curativos, levavam a que o paciente ficasse supostamente curado.”

tradução de Miguel Boieiro; livre e pessoal do que vem no Diccionário de Plantas Curativas de la Península Ibérica de Enric Balasch e Yolanda Ruiz – edição Servilibro de Madrid


Terminadas as Fábulas
a Isabel leu-nos um excerto da sua sugestão para livro do dia, "Abraço" de José Luís Peixoto

e pronto
já se sabe que o ar do campo dá fome

e mesmo ao fechar do pano, fomos convidados a visitar uns inquilinos especiais do Pinhal das Areias





"Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro. Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal...Come o que lhe dou. Gosta das tangerinas, das uvas moscatéis, todas de âmbar, dos figos roxos, com sua cristalina gotita de mel... É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra. Quando nele passo, aos domingos, pelas últimas ruelas da aldeia, os camponeses, vestidos de lavado e vagarosos, param a olhá-lo:— Tem aço...Tem aço. Aço e prata de luar, ao mesmo tempo."

Juan Ramón Jiménez
de “Platero e eu



próxima sessão - 22 setembro - sábado - 15h00

o local de encontro é na entrada norte do Pinhal das Areias
(junto ao Polo de animação ambiental do Sítio das Hortas)


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será o tema da sessão
apresentará o livro do dia

2012.09.04 - A(s) COR(es)



a Anabela leu um excerto de "O poder da mente" de Uri Geller

o António leu-nos de sua autoria

Língua encarnada

Não pinto os lábios, pinto a língua. Encarnada, vermelho sangue. Rubra. Violenta, colérica. Diz todas as coisas e lambe vários papéis.

Pinto a língua, abro os lábios para sair da minha boca as muitas encarnações da cor. Matiza-se do cinzento timidez e perfume, do amarelo amanhece, nascem rios com o verde, os dentes são pérolas da sua cor. Bebo as águas cintilantes, mergulho no branco. Venho à tona num barco bocal, agarro-me aos lábios, debato-me com a língua e reescrevo. Marco a lacre, beijo o selo e o envelope. Envio a carta num papel impecável.

Limpo a boca num punho, mas a língua não se lava. A língua é apenas presa numa ponta, músculo em forma de falo. Falo todas as mentiras, ponho-lhes cor, dou-lhes nomes, chamo-as o que calhar. Lambo os lábios escondendo o riso aqui dentro, uma caixa-surpresa, a mola da língua salta. Desperta toda uma casa, o universo dentro de um mundo, dentro de uma língua, fora do coração.

A minha língua acorda as tuas mãos, a tua pele, os teus cheiros, a cor dos teus olhos, os teus sexos. Pudesse a minha língua acordar todas as línguas.

Pudesse a língua não caber nunca, nunca numa mão. Que seja a língua bandeira e cometa e sempre se veja neste ponto minúsculo. Lamba a língua encarnada, deguste o sal, salive um céu inteiro e omisso, presa em si mesma, presa à carne da sua própria língua.

Até que a língua se me cale. Então preta. Então encarnada.

Mais textos do António podem ser lidos no seu blogue


a Conceição leu, de Florbela Espanca

Primavera

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


também de Florbela Espanca, o Manuel leu

Cravos vermelhos

Bocas rubras de chama a palpitar,
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar,
Esse perfume capitoso e bom?!

Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d´esculturais sorrisos?!

…Bem sei vosso segredo…Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores do mal
Disse-me agora: “Uma manhã, o sol,

O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga…


a Cíntia leu, de Juan Ramón Jiménez

A cor da tua alma

Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.  

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!

de "Ríos que se Van"
Tradução de José Bento


a Ana Brandão leu de Wanderley Midei, As cores dos amigos


a Ana Vieira leu de Reinaldo Ferreira

Quero um cavalo de várias cores

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?


a Cristina e o Fernando leram de Russell Edson

O livro em branco

O livro estava em branco, todas as palavras tinham caído.
O marido disse-lhe, o livro está em branco.
A mulher disse, aconteceu-me uma coisa estranha a caminho do momento actual.
Eu estava a sacudir o livro, para eliminar todas as gralhas, e de súbito todas as
palavras e a pontuação também caíram. Talvez todo o livro fosse uma gralha?
E o que fizeste às palavras? disse o marido.
Embrulhei-as e mandei-as para um endereço fictício, disse ela.
Mas ninguém lá vive. Não sabes que é raro alguém viver num endereço fictício.
A realidade quase não chega para fornecer um simples endereço postal, disse ele.
É por isso que as enviei para lá. Palavras todas misturadas podem de repente
coalescer em boatos e mexericos maliciosos, disse ela.
Mas estas páginas em branco não representam também um convite perigoso a
boatos e mexericos maliciosos? Quem sabe o que alguém pode distraidamente
escrever? Quem sabe o que o acaso poderá fazer com um convite tão perigoso? disse ele.
Talvez tenhamos que nos enviar para qualquer endereço fictício, disse ela.
Será porque as palavras continuam a sair das nossas bocas, palavras que poderiam
facilmente originar boatos e mexericos maliciosos? disse ele.

de O Túnel
Assírio & Alvim


a Ana Paula leu-nos de Hervé Tullet, Um livro


o Miguel leu-nos de sua autoria

As cores

Amigos, críticos e detratores de todas as cores, fartos das minhas croniquetas verdes, vêm insistindo para que escreva antes sobre as experiências de âmbito social que acumulei ao longo da minha terrena existência.
Perante a negritude que o futuro próximo, e quiçá o longínquo, parece prenunciar, é irrecusavelmente aliciante, voltar atrás para caracterizar a vida com as cores que ela se apresentava há volta de sessenta anos. Em simultâneo, será uma pesquisa feita nas profundas do subconsciente e um exercício algo nostálgico, emocional, mas não saudosista, sobre a vida, a minha vida, entenda-se, tal como a divisava com seis anos de idade. Desculpar-me-ão os pessoalismos e as ingenuidades que forçosamente hão de aflorar nas minhas toscas descrições infantis.
Ora quando tinha seis anos e para além do que a natureza, a grande mestra, me oferecia, as únicas cores que dispunha eram o preto e o branco. O preto quando gatafunhava a lápis naqueles cadernos escolares de duas linhas para que as letras merecessem o epíteto de caligrafia. O branco, quando escrevia com uma pena de xisto nas pequenas ardósias que nós chamávamos “pedras”. Para reproduzir qualquer coisa, tinha que ser a preto e branco. Confesso, aliás, que não tinha jeito algum para o desenho. Bem tentava desenhar casas, galinhas, árvores e barcos mas saiam-me sempre imagens disformes, longe da realidade. Televisão não havia e quando apareceu, era a preto e branco. Aos domingos ia ouvir o relato da bola à taberna da tia Celeste e lá imaginava o verde do Sporting, o azul-escuro do Belenenses e o encarnado do Benfica. Do Porto, não! Só o tio Leques é que era portista. A designação “vermelha” não se usava, era conotada com a cor da capa do belzebu, com o comunismo, com a revolução e portanto, liminarmente proibida. Nos jornais, que também só eram a preto e branco, quando algum cronista mais afoito escrevia “vermelho”, logo a censura cortava e substituía por “carmesim”, “escarlate” ou “encarnado”.


a Antónia leu um excerto de "Seara Vermelha" de Jorge Amado

O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o céu novamente limpo crianças começaram  a brincar. As aves de criação saíram dos seus refúgios e voltara a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar. Pingos de água brilhavam sobre as folhas verdes das árvores e dos mandiocais. E uma silenciosa tranqüilidade se estendeu sobre a fazenda, as árvores, os animais e os homens.
Apenas as vozes álacres das crianças, pelos terreiros, cortavam a calma daquele momento:

Chove, chuva chuverando
Lava a rua do meu bem...


a Cristina, a Fernanda e a Helena Barros leram, de Camilo Pessanha

Branco e Vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.

Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,

A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

de Clepsidra


a Alexandra leu um excerto do "Livro das sete cores" de Maria Alberta Menéres


a Helena Nogueira leu  "Como se faz cor-de-laranja" de António Torrado


a Adília leu-nos um texto da sua autoria

Uma homenagem às cores
Às emoções …
Ao calor que delas irradia…
À alegria que nos proporciona … um simples dia de sol, em que até as cores ganham vida!!!

Das fotografias a preto e branco à televisão a cores
Das flores… e das floristas… na baixa de Lisboa
Ao branco das casas alentejanas, com uma risca azul …
Da magia do nascer até ao pôr do sol …

E os significados das Cores???
O que seria da rosa encarnada… sem cor??? Que paixões despertaria?
Sem cor…como seria? … Branca? … Cinzenta? … Transparente? Existiria sequer???

E as cores em nós???
Sem cores, como seríamos???
Haveria realmente diferença entre brancos e pretos?
Como saberíamos que alguém estava apaixonado se ficasse corado ou corada quando passa alguém … especial?!?!?!?
A cor domina!!! Arrasa alguém que tenta conquistar aquela mulher com os lábios e as unhas pintadas de fogo!!!
E a inveja saudável causada pelos amigos que regressam das férias com um belo tom moreno…
E os teus olhos??? Fechem os olhos e imaginem as cores na música … dos teus olhos …a música que fala dos olhos verdes e do ciúme!!!
A cor dos olhos…
Que cores veem os olhos?
As mesmas cores que vemos hoje, amanhã podem estar diferentes … mais pálidas, mais secas ou, pelo contrário, com mais vida e mais resplandecentes que nunca!!!

Sabiam que as cores também dançam com os sabores???
Este verão perdi-me com os pêssegos amarelos … aqueles de roer, sabem??? E quanto mais alaranjados eram mais despertavam o apetite!!
A cor também é arte…beleza… a cor é amiga…
A simples cor da manga dá-me tranquilidade… é harmoniosa …
Não é também o que sentimos quando vemos no campo os lençóis brancos estendidos nos quintais, ao sabor do vento, rodeados pela relva ou por um jardim cheio de flores … e cores???!!!

Mas ainda deambulando pelos sabores…
Não ficam com água na boca ao pensar no amarelo da baunilha a contrastar com o doce de morango caseiro???
Ou se preferirem … algo salgado…
A cor salmão … do salmão!!! Bem acompanhado com uma rodela de limão…amarela!!!

Nunca contemplaram uma bancada do mercado de frutas e legumes pincelada com mil cores?
Imaginem uma tela com laranjas … uma fatia de melancia preta … melão verde … couve flor … brócolos … morangos … cebolas … pimentos, amarelos, verdes, encarnados!!! … Batatas com peles de várias cores!!! Cores com vários tons!!!

Ai … os sabores… que nos provocam …. as cores!!!
Hummm de morango … baunilha… tutifruti…
Delicioso não é?
Mas … quem ansiaria por um gelado ou uma gelatina  de morango, ou tutifruti sem cor???
E a salada de fruta? E a salada russa?
Se não tivessem cor ... não tinham graça nenhuma!!! E decerto também não faziam crescer água na boca!!!
Vamos, com os olhos, comer cores??? Que tal um arroz doce bem fresquinho, branco … de leite!!! Ou, com ovos que gentilmente oferecem um suave tom amarelado ao nosso desejo???!!!

E as estações do ano?
Não se distinguem elas próprias também pela cor???
Na primavera… a rosa desperta…cor de rosa!!!
No verão …
Como seria o céu e o mar, se não existisse a cor azul?
É tão bom sonhar com o azul do mar…
Com os diferentes tons de azul na água do mar … na praia da Comporta!!!
Apetece-me recordar também a areia dourada da praia de Porto Santo…
Lembram-se das noites de Agosto???
Da água transparente na noite escura onde apenas reina uma lua cheia… branca ou amarelada!!!
E no outono???
As cores mudam … alguns dias vão estar cinzentos e frios … a noite regressa mais cedo, acompanhada pela escuridão, pelo vento … esse vadio sem cor!!!
Mas o Outono também tem outras cores bem mais interessantes e saborosas como as castanhas quentinhas … castanhas!!!
No inverno …
Se chover e fizer sol…algures vai acontecer uma magia indescritível …

Sabem qual é a magia???

É a do … arco-íris!!!



e no final tivemos boleima


O que é, como funciona e regras básicas

O que é o CLeVA? Clube de Leitura em Voz Alta de Alcochete. Um grupo de pessoas que se reúne quinzenalmente, na Biblioteca de Alco...