A partir de Outubro de 2017, ao entrar no seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passou a Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.

próxima sessão | 10 Fevereiro 2015

será o tema
***ATENÇÃO```
os textos serão obrigatoriamente humorísticos
e preferencialmente lidos em grupo

apresentará o livro do dia

paixão

com o tema "Paixão" e com textos teatrais (nem todos) se passou a noite

hoje falámos de técnicas para tornar uma leitura eficaz

e praticámos com um excerto de "A noite das mulheres cantoras" de Lídia Jorge

Sabes o que queremos? Queremos vencer encantando, seduzindo. Tão simples quanto isto, não to escondemos. Queremos encantar pessoas, milhares, milhões de pessoas. Queremos ser maiores do que cada uma delas e do que todas no seu conjunto, queremos ter uma habilidade que elas não têm. Queremos entrar-lhes pelos ouvidos, pelos olhos, pelos nervos, pelo corpo todo. Entendes? Por isso, elas vão ficar paradas, à espera, e nós na sua frente, seduzindo-as, colando-as aos seus lugares, hipnotizando-as, desvairando-as com o nosso talento. Plateias, salas inteiras, recintos repletos de gente submetida por encantamento à nossa música. Queremos o mundo. Queremos fazer amor com o mundo, entregando-lhe a nossa música e recebendo em troca tudo o que o mundo tem para nos dar. Só isso. Nós não temos medo das palavras. A música serve para isso. É isso que queremos, quem não entender não serve para esta função. A pergunta que eu te faço é a seguinte - Queres sair desse local absurdo, onde te escondes feita um bichinho mudo, para te mostrares e vires connosco? Para vires à luta e encantares pessoas? Responde.










"Por quem os sinos dobram" de Ernest Hemingway

e entrámos nas leituras subordinadas ao tema da sessão

a Ana e a Luísa leram um excerto de
"Dom João no jardim das delícias" de Norberto Ávila


a Teresa leu de Sophia de Mello Breyner Andresen
E só então saí das minhas trevas:
Abri as minhas mãos como folhagens,
Intacta a luz brotava das paisagens,
Mas na doçura fantástica das coisas
As minhas mãos queimavam-se e morriam.

Dia perfeito, inteiro e luminoso,
Dia presente como a morte, luz
Trespassando os meus olhos de cegueira.
Cada voz, cada gesto, cada imagem
Na exaltação do sol se consumia.

de "Coral"



a Maria João leu de Herberto Hélder
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

excerto do poema "Tríptico" de "A Colher na Boca"


a Maria leu um excerto de
"Romeu & Julieta" de William Shakespeare


o Luís leu um excerto de
"Cyrano de Bergerac" de Edmond Rostand
CYRANO: Um beijo! A palavra é doce. Não vejo por que os seus lábios recuam;
Que faz um beijo? Ele queima? Oh! Não deixe a sua timidez amedrontá-la;
Não passou todo este tempo a deixar os gracejos de lado, insensível, indo, com destemor, do sorriso ao suspiro - do suspiro ao choro?
Escorregue gentilmente, imperceptivelmente, adiante. - da lágrima ao beijo - um momento de terror! - um batimento cardíaco!

ROXANE: Silêncio! Silêncio!

CYRANO: Um beijo quando tudo já foi dito - o que é? Um juramento ratificado - uma promessa selada, uma confissão do coração pedindo para ser confirmada - um botão de rosa no ‘i’ de ‘paixão’- um segredo que à boca, não ao ouvido, é sussurrado - pincel de asa de abelha que faz o tempo eterno - comunhão perfumada, como as flores fogosas da primavera - alívio ao peito opresso, quando a inundação que se forma na alma transborda aos lábios!

ROXANE: Silêncio! Silêncio!

CYRANO: Um beijo, Madame, é honroso: A rainha de França, ao seu maior favorito concedeu um beijo - a própria rainha!

ROXANE: Como assim?

CYRANO (falando calorosamente): Buckingham sofreu em silêncio, - assim fui eu, - adorando sua rainha tão lealmente quanto eu - foi triste mas… fiel – assim como eu…


a Gabriela leu um excerto de
"Os três casamentos de Camila S." de Rosa Lobato de Faria


a Ilda leu de António Feijó
 Dois! Eu e Tu, num ser indispensável! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, — em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho e a selva
— O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva —
Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
— Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama...

de "Sol de Inverno"



a Celina leu um excerto de
"A surpresa do amor" de Pierre de Marivaux


o Renato leu um excerto de
"A voz humana" de Jean Cocteau


a Ana Maria, a Virgínia e a Margarida leram de correspondência entre
Fernando Pessoa e Ophélia
Meu bebé pequenino
Então o meu Bébé fez-me uma careta quando eu passei?
Então o meu Bébé, que disse que me ia escrever hontem, não me escreveu?
Então o Bébé não gosta do Nininho? (Não é por causa da careta, mas por causa de não escrever)
Olha, Nininha; e agora a serio: achei que tinhas um ar alegre hoje, que mostravas boa disposição. Também pareces ter gostado de ver o Ibis, mas isso não garanto, com medo de errar.
Ainda fazes muita troça do Nininho? (A. de C.).
Não sei se irei amanhã a Belem; o mais provavel, como te disse, é que vá.
Em todo o caso, já sabes: depois das 6.30 não appareço, de modo que escusas de esperar pelo Ibis para alem d’essa hora.
Ouvistaste? [sic]
Muitos beijos e um abraço á roda da cintura do Bébé.
Sempre e muito teu
Fernando
6.5.1920

Nininho da minha alma
[Postal ilustrado]
8/5/1920
Nininho da minha alma:
Cheguei agora de minha irmã, são quase 11 horas e vou-me já, já, deitar porque estou
moidíssima. Gostei da tua cartinha do 6 e fiquei com pena de não ter mais, hoje mandei uma pequena à minha casa para saber se lá tinha alguma carta, mas não tinha nada. Porque não escreveste [,] mau mau? Ai Álvaro de Campos [,] A. de C. [,] então eu faço troça do Nininho?
Podes garantir porque não erras, realmente no Domingo estava bem disposta e alegre e gostei imenso mesmo de ver o meu Ibizinho. E a prova que estou bem disposta é que cosi todo o dia.
Amanhã espero-te em Belém, não faltes não? E vai cedinho que é para eu não esperar muito, se eu antes das 6 ½ não estiver lá não te admires [,] é porque ainda não saí, e não porque me tenha ido embora, eu espero até às 6 ½. Eu afinal parece-me que fico de todo com a minha irmã quando o meu cunhado se for embora.
Não Nininho [,] eu não gosto de si, mas eu no Sábado escrevi, mas não tinha selos e juntei com a de Domingo como viste.
Vou já fazer óó, tu não queres vir?, não gostas do bebé... Adeus amor até amanhã.
Apaixonados jinhos da tua
Ofélia

Bébézinho do Nininho-ninho
Oh!
Venho só quevê pâ dizê ó Bébézinho que gostei muito da catinha d’ella. Oh!
E tambem tive munta pena de não tá ó pé do Bébé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequinininho!
Hoje o Nininho não vae a Belem porque, como não sabia s’havia carros, combinei tá
aqui ás seis o’as.
Amanhã, a não sê qu’o Nininho não possa é que sahe d’áqui pelas cinco e meia (1)
(isto é a meia das cinco e meia).
Amanhã o Bébé espera pelo Nininho, sim? Em Belem, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos
Fernando
31/05/1920
(1) No original, há aqui o desenho de uma meia.


o Fernando e a Cristina leram um excerto de
Guerras do alecrim e manjerona  de António José da Silva
(...)

Fagundes: E bom sumiço! Aonde estarão estas meninas, que há mais de quatro horas que foram à Missa, e ainda não há rumo delas? Meu senhor, vossa mercê acaso veria por aqui duas mulheres com uma criada?

Dom Fuas: Que sinais tinham?

Fagundes: Tinha uma delas uns sinais pretos no rosto, e a outra uns sinais de bexigas.

Dom Fuas: E que mais?

Fagundes: Uma delas tem os olhos verdes, cor de pimentão, que não está maduro, e a outra olhos pardos, como raiz de oliveira; uma tem cova na barba, e a outra barba na cova, uma tem espinhela caída, e a outra um leicenço num braço.

Dom Fuas: Com esses sinais, nunca vi mulher nesta vida.

Fagundes: Meu senhor, uma delas trazia um ramo de Alecrim no peito, e a outra de Manjerona.

Dom Fuas: Vi muito bem, que são as sobrinhas de Dom Lancerote.

Fagundes: Essas mesmas são: ora diga-me, aonde as viu?

Dom Fuas: Promete vossa mercê fazer-me quanto lhe eu pedir?

Fagundes: Ai, que coisa me pedirá vossa mercê, que lhe não faça, dizendo-me aonde estão as minhas meninas?

Dom Fuas: Pois descanse, que elas aqui estiveram, e agora foram para casa.

Fagundes: Ai, boas novas tenha.

Dom Fuas: Ora, pois, em alvíssaras desta boa nova quero me diga como se chama...

Fagundes: Eu? Ambrósia Fagundes, para servir a vossa mercê.

Dom Fuas: Digo, como se chama a que trazia a Manjerona no peito?

Fagundes: Chama-se Dona Nize.

Dom Fuas: Pois, Senhora Ambrósia Fagundes, saiba que eu adoro tão excessivamente a Dona Nize, que em prémio do meu extremo me franqueou este ramo de Manjerona.

Fagundes: É verdade, que pelo cheiro o conheço, que é o mesmo.

Dom Fuas: E como me dizem os impossíveis, que há de a poder comunicar, quisera dever-lhe a galantaria de ser minha protectora nesta amorosa pretensão; e fie de mim, que o prémio há de ser igual ao meu desejo.

Fagundes: Meu senhor, difícil empresa toma vossa mercê; porque além da excessiva cautela do tio, que nisto não se fala, uma delas está para casar com um primo, que hoje se espera de fora da terra, e a outra qualquer dia vai a ser freira; com que, meu senhor, desengane-se, que ali não há que arranhar.

Dom Fuas: E qual delas é a que casa?

Fagundes: Ainda se não sabe; porque o noivo vem à escolha daquela que lhe mais agradar.

Dom Fuas: Como o vencer impossíveis é próprio de um verdadeiro amante, nós havemos intentar esta empresa, saia o que sair; que a diligência é mãe de boa ventura: favoreça-me vossa mercê, Senhora Fagundes, com o seu voto, que eu terei bom despacho no tribunal de Cupido; tenho dinheiro e resolução, e tendo a vossa mercê da minha parte, certo tenho o triunfo da Manjerona.

Fagundes: Pois por mim não se desmanche a festa, que eu não sou desmancha-prazeres; esta noite o espero debaixo da janela da cozinha; sabe onde é?

Dom Fuas: Bem sei.

Fagundes: Pois espere-me aí, que eu lhe direi o que há na matéria.

Dom Fuas: Deixe-me beijar-lhe os pés, ó insigne Fagundes, feliz correctora de Cupido.

Fagundes: Ai! Levante-se, senhor, não me beije os pés, que os tenho agora mui suados e um tanto fétidos; descanse, senhor, que Dona Nize há de ser sua apesar das cautelas do tio, e das carícias do noivo.

Dom Fuas: Se tal consigo, não tenho mais que desejar.

(...)

e para terminar...

próxima sessão | 27 Janeiro 2015

será o tema
***ATENÇÃO***
os textos deverão, obrigatoriamente, ser de TEATRO

áfrica



a Cristina começou por ler-nos um pouco de "O prazer da leitura" de Marcel Proust


de seguida trabalhámos dicção

e as leituras do tema da sessão:

a Cristina e o Fernando leram um excerto de "A relíquia" de Eça de Queiroz


a Maria, a Alexandra e a Patrícia leram um excerto de "Os Lusíadas" de Luís de Camões


a Maria João leu um excerto de "Chuva Braba" de Manuel Lopes


a Ana Maria leu de João de Deus
Versão Zulu

Rainha Jacinta foi
dar uma tarde passeio,
quando mestre Ginga veio
assanhado como um boi;
e diz a Jacinta: – “Dói
ver que estás tão insensata;
em dia que a onda bata
assim com a força desta,
só sendo pessoa besta,
só sendo pessoa gata,
vem à praia fazer festa
sem medo de água que mata.”

Mas vai rainha Jacinta,
que tem bestunto e tineta,
cuida que Ginga diz peta,
cuida que Ginga lhe minta;
e diz ao Ginga: – “Consinta
ou não consinta o sinhora,
Jacinta vai praia fora,
buscando concha encarnada;
atrás de mim vem soldada,
vem gente que toda a hora
que me veja atrapaiada,
deita logo calça fora,
rainha Ginga é pescada.”

Mal sabia gente preta,
mal cuidava (triste dia!),
ver Jacinta numa pia
mais funda que uma gaveta!
Corre o gente todo inquieta,
rainha Ginga estrebucha;
foi obra dalguma bruxa
ir esticando a canela!
Gente preta pega nela,
preto larga, preto puxa;
mãe Jacinta volta a ela,
pai Ginga dança cachucha.

Jacinta é condecorada
com berliques de pendura
e faz bonita figura
com sua fita bordada,
com sua fita encarnada,
da cor que pretinho gosta;
fita maior que lagosta,
fita maior que pescada:
em n’a pondo atravessada,
rainha Ginga, bem posta,
pretinho bate palmada:
“- Viva Jacinta da costa!
Viva Jacinta pescada!”


o Luís leu excerto de "Carta a Guerra Junqueiro"
de Eça de Queirós, de Correspondência de Fradique Mendes
V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa comunicação puramente espiritual, e que, despida de toda a exterioridade litúrgica, ela seja apenas como o espírito humano, falando ao espírito divino». Mas para isso é necessário que venha o Milénio — em que cada cavador de enxada seja um filósofo, um pensador. E quando esse Milénio detestável chegar, e cada tipóia de praça for governada por um Mallebranche, terá V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina, uma nova humanidade feminina, fisiologicamente diferente da que hoje embeleza a Terra. Porque enquanto houver uma mulher constituída física, intelectual e moralmente como a que Jeová, com uma tão grande inspiração de artista, fez da costela de Adão, — haverá sempre ao lado dela, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre. 
Essa comunhão mística do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser senão o privilégio duma élite espiritual, deploravelmente limitada. Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budista, cristã, maometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua essência, a súplica dos favores divinos e o afastamento da cólera divina; e, como instrumentação material para realizar estes objectos, o templo, o padre, o altar, os ofícios, a vestimenta, a imagem. Pergunte a qualquer mediano homem saído da turba, que não seja um filósofo, ou um moralista, ou um místico, o que é Religião. O inglês dirá: — «É ir ao serviço ao domingo, bem vestido, cantar hinos». O hindu dirá: — «É fazer poojah todos os dias e dar o tributo ao Mahadeo». O africano dirá: — «É oferecer ao Mulungu, a sua ração de farinha e óleo». O minhoto dirá: — «É ouvir missa, rezar as contas, jejuar a sexta-feira, comungar pela Páscoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu objecto, como seres religiosos, está todo em comunicar com Deus, e esses são os meios de comunicação que os seus respectivos estados de civilização e as respectivas liturgias que deles sairam, lhes fornecem. Voilà! Para V., está claro, e para outros espíritos de eleição, a Religião é outra coisa — como já era outra coisa em Atenas para Sócrates e em Roma para Séneca. Mas as multidões humanas não são compostas de Sócrates e de Sénecas — bem felizmente para elas, e para os que as governam, incluindo V. que as pretende governar! 
De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples há modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituais. Um presenciei eu, deliciosamente puro e íntimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vésperas de entrar em guerra com um chefe vizinho, comunicar com o seu Deus, com o seu Mulungu (que era, como sempre, um seu avô divinizado) . O recado ou pedido, porém, que desejava mandar à sua Divindade, não se podia transmitir através dos Feiticeiros e do seu cerimonial, tão graves e confidenciais matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo compreendera, tudo retivera: e imediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquilamente — «parte»! A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e selada, direita para o Céu, ao Mulungu. Mas daí a instantes o chefe, bate uma palmada aflita na testa, chama à pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rápidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra: — «Vai!» Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungu... O segundo escravo era um pós-escrito...
Esta maneira simples de comunicar com Deus deve regozijar o seu coração. Amigo do dito. — FRADIQUE


a Gabriela leu de Luísa Ducla Soares
Negra

Vós chamais-me moreninha
Mas eu morena não sou,
Sou tão negra como a noite
E a estrada por onde vou.

Tenho olhos de azeitona,
Minha pele é de pantera,
Meu corpo tem um traçado
Ágil e negro de fera.

Negra África me corre
Dentro das veias, num rio.
Só o meu sorriso é branco
Como as velas dum navio.

Não me chamem moreninha
Porque eu morena não sou,
Sou negra como o orgulho
De ser aquilo que sou.


o Renato leu um excerto de "O coração das trevas" de Joseph Conrad


a Virgínia e a Celina leram "A serpente de Olumo",
conto da tradição oral da Nigéria, de "Contos Nigerianos"


a Ilda também leu um excerto de "O coração das trevas" de Joseph Conrad


a Margarida leu um excerto de "Os Lusíadas", Canto V de Luís de Camões


a Teresa leu de Henrique Teixeira de Sousa
Entre gente de sobrado, de loja e de funco, nasci e vivi.
Nunca cheguei a perceber bem qual o lugar me coube nessa sociedade.
Por isso, este livro é de todos e para todos.

A igreja estava apinhada de gente. Não de gente que viesse toda ao funeral de Nha Caela. Gente, sim, que estava ali, na maioria, para assistir à missa grande do dia de S. Lourenço. Desde o altar-mor até cá fora à entrada quase não havia lugar para cair uma agulha, tantos eram os pés e os joelhos que cobriam o chão. No meio da igreja, numa rodinha que pouco mais era que o espaço para meia dúzia de covas de milho, descansava o caixão de Nha Caela. Quatro castiçais de bronze ladeavam o esquife. As velas de cera ardiam serenamente, dir-se-ia a alma bondosa da finada evolando-se da terra. Bafo morno pairava no ambiente de mistura com o cheiro a podridão que vinha do corpo da defunta. Mas isso não impedia que mais pessoas procurassem furar a multidão para se instalarem pertinho dos castiçais. Nem mesmo se sabia quando findavam os apertões e de que maneira o padre Afonso havia de realizar as exéquias. Logo foi ela morrer na véspera de S. Lourenço e escolher precisamente aquela igreja para receber o ofício fúnebre, no dia 10 de Agosto, dia do orago da freguesia. Bem podia ser enterrada na cidade, onde de resto residia a maior parte do ano. Mas morreu no sobradão de Ilhéu de Contenda, e assim deixara recomendado ao filho Eusébio, caso fechasse os olhos na sua casa de campo, que a sepultassem no cemitério de S. Lourenço, ao lado do amado esposo. Muito nutrida e pesada, não foi sem alguma dificuldade que transportaram o corpo até à igreja, debaixo de um sol de rachar. O camião, que devia vir de S. Filipe para acarretar o caixão, teve dois furos e ficou parado por altura de Cutelo Comprido. Quando o ajudante do camião chegou suado ao sobradão para informar Nhô Eusébio da avaria, este já havia recrutado oito homens para levar o esquife, que agora estava a ser desrespeitado pelos festeiros, e donde exalavam os odores fétidos que empestavam a igreja. Até pingava líquido pútrido por baixo, saído talvez dos orifícios naturais. Não era para admirar, com o calor que fazia. Calor prenunciando mais chuva. Desde 20 de Julho que chovia a bom chover. Nunca se vira ano agrícola que começasse com tanta chuva. Quase todos os dias caía água do céu. Por isso, andava tudo verde, do mar até à serra. Forçosamente que seria um ano farto.

excerto de "Ilhéu da Contenda"


o Tomás leu o prólogo de "A cabana do pai Tomás" de Harriet Beecher Stowe

Este relato refere-se a uma raça de homens nascidos sob o sol dos trópicos, uma raça resignada, heróica e abnegada ao longo de muitos anos – a raça de cor, a raça negra -, embora já se vislumbre, clareando na distância de um belo horizonte, o amanhecer de melhores dias. Foi a influência díspares, tendendo a converter em maravilhosa realidade a máxima do Cristianismo: «Amai-vos uns aos outros.»                                   
Surge na mente da autora deste livro a recordação da África, o malfadado continente que constituiu o primeiro degrau da grandiosa escadaria que conduzia à civilização ao progresso nos primeiros alvores de uma humanidade que ainda permanecia adormecida na noite dos tempos – essa África que, após muito século de horrível escravidão, lança agora no espaço, se bem que ainda em vão, o seu angustioso apelo de liberdade. Talvez por isso, a raça dominante tenha entendido finalmente que nunca é tarde para se abrir à compreensão e à convivência cordial, começando a franquear o coração à piedade, serenamente convencida que é muito mais nobre proteger a pária a escravizá-lo extenuá-lo com o rigor da mais infame das desditas humanas. Graças, pois, ao céu, por haver permitido que o mundo pudesse sobreviver à traficância dos negros!



a Luísa e a Ana leram um conto tradicional do Burkina Faso "O belo negro"


a Gabriela apresentou "Capitãs de Abril" de Ana Sofia Fonseca como livro do dia


e para terminar... entre outras iguarias tivemos Fogaças de Palmela
 Fogaças de Palmela

500 g de pão em massa; 500 g de açúcar amarelo; 1 kg de farinha; 125 g de banha; 2 ovos + 1 ovo para pintar; sumo de 2 laranjas; raspa de 1 laranja; aguardente; canela; erva-doce

Ligam-se os ovos ao pão em massa. Juntam-se em seguida, o sumo e raspa das laranjas, a banha, o açúcar, a canela, a erva-doce, a aguardente e por fim a farinha. Depois de tudo bem ligado e amassado deixa-se levedar durante 30 minutos. Moldam-se várias formas, como animais, corações, pés, mãos, cachos de uva,..., e pintam-se com ovo batido. Vai a cozer em tabuleiro untado em forno moderado.

Nota: Poderá levar um pouco mais de farinha, dependendo do tamanho dos ovos e das laranjas para que a massa tenha uma consistência que a permita moldar. A erva-doce e a canela são a gosto, no entanto a quantidade de erva-doce deverá ser sempre superior à da canela. Pode não levar raspa de laranja, mas sim de limão.

próxima sessão | 13 Janeiro 2015

será o tema
***ATENÇÃO***
as leituras deverão, preferencialmente, ser feitas em grupo
e os textos deverão, obrigatoriamente, ser de AUTORES CLÁSSICOS

apresentará o livro do dia

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